domingo, 10 de dezembro de 2017

DAS METAS CURRICULARES

O Expresso apresenta uma peça da jornalista Isabel Leiria em que se procura relacionar as metas curriculares com os resultados dos alunos portugueses do 4º ano em dois estudos internacionais, o Progress in International Reading Literacy Study (PIRLS) que em 2016 avaliou literacia na leitura e o Trends in International Mathematics and Science Study (TIMSS) que em 2015 avaliou o desempenho em educação matemática. Acrsce que no PIRLs se verificou uma descida significativa nos resultados face à avaliação anterior contrariamente aos resultados do TIMSS de 2015 que subiram.
Parece claro que esta relação deve ser vista com prudência pois, como escrevi na altura, por um lado são múltiplas as variáveis associadas ao desempenho dos alunos e, por outro, matemática e leitura também envolvem algumas especificidades.
Nesta perspectiva, a questão de ser “contra” ou a “favor” das metas curriculares tal como na discussão sobre exames deve ser vista com prudência e sem “facilitismos” de natureza simbólica ou real.
De facto, se a sua existência, só por si, nunca me pareceu um contributo sólido para a qualidade da educação o que é suportado por estudos, comparações e relatórios internacionais, a sua inexistência, só por si, também não trará qualidade.
As metas curriculares, com esta ou outra designação podem e devem funcionar como uma ferramenta orientadora e útil para o trabalho de alunos e professores. Para que isso aconteça deverão ser de simples utilização e operacionalização, clara para pais e comunidade e decorrentes de modelos curriculares diferentes dos actuais, demasiado extensos, prescritivos e espartilhados. Julgo que o modelo seguido para a definição da Orientações Curriculares para a Educação Pré-escolar podiam ser inspirador de alguma mudança. Também sabemos que diferentes países com níveis de desempenho mais elevado ou mais baixo também apresentam concepções curriculares diferenciadas embora saibamos que modelos curriculares mais abertos se tornam mais “amigáveis” para professores e alunos sustentando maior capacidade de acomodação da diversidade dos alunos e maior probabilidade de práticas pedagógicas mais diferenciadas.
Importa ainda considerar a importância da existência de dispositivos de avaliação externa.
Na mesma linha deverá ser cauteloso o processo relativo às metas curriculares embora tenhamos sempre de considerar a tentação do “ímpeto reformista” que as sucessivas equipas do ME sentem levando o sistema a uma deriva inconsequente e com efeitos negativos.
Estou perfeitamente à vontade porque desde o início afirmei que as metas curriculares, tal como estão definidas, podem ser parte do problema e não parte da solução. Trabalhos como o da Professora Dulce Gonçalves da Universidade de Lisboa sobre o 1º ciclo e centrado na língua portuguesa, a posição da esmagadora maioria das associações profissionais de professores e o contacto com muitos professores e escolas mostram a tremenda dificuldade criada a professores e alunos pela forma como estão definidas as metas curriculares.
No entanto, insisto, a mudança que me parece necessária deve ser muito cautelosamente e solidamente preparada.
Vejamos apenas o 1º ciclo em Matemática e Português. Em Matemática são definidos 3 domínios que se desdobram como segue. No 1º ano, em 8 sub-domínios, 13 objectivos e 62 descritores, no 2º ano em 11 sub-domínios, 22 objectivos e 82 descritores, no 3º ano em 11 sub-domínios, 22 objectivos e 98 descritores e no 4º ano em 6 sub-domínios, 15 objectivos e 81 descritores o que em síntese corresponde a 72 objectivos e 323 descritores para Matemática do 1º ciclo.
Se juntarmos Português teremos um total de 177 objectivos e 703 descritores. Por anos, temos: no 1º ano, 33 objectivos e 143 descritores; no 2º, 47 objectivos e 168 descritores; no 3º, 51 objectivos e 202 descritores e no 4º, 46 objectivos e 190 descritores. É obra, uff.
O Programa de Português para o ensino Básico estabelece perto de 1 000 metas curriculares,
Este entendimento pode levar a que o ensino se transforme na gestão de uma espécie de "check list" das metas estabelecidas implicando a impossibilidade de acomodar as diferenças, óbvias, entre os alunos, os seus ritmos de aprendizagem. Esse o grande risco das metas tal como estão definidas.
Aliás, neste contexto recordo a afirmação dos autores das metas curriculares, de que estas estabelecem o que os alunos deverão imprescindivelmente revelar, “exigindo da parte do professor o ensino formal de cada um dos desempenhos referidos nos descritores”.
Este cenário, aplicado em todas as áreas ou disciplinas, em turmas que apesar da reversão em curso podem ainda ter 26 alunos no 1º ciclo e de 30 a partir do 5º ano, constituídas por alunos com ritmos diferentes e assimetrias nos seus percursos e competências e características socio-demográficas, deixa-me uma imensidade de dúvidas sobre a aplicação das metas curriculares, tal como estão definidas actualmente.
Em síntese, sim esta situação necessita ajustamentos mas “depressa e bem não há quem” e as “reformas” devem ser preparadas com competência, com participação, com recursos e com tempo.

sábado, 9 de dezembro de 2017

DO CHEGAR E DO PARTIR

Chegar e partir são circunstâncias que por vezes trazem dor. A dor tem circunstâncias que a diferencia no que sentimos.
Quando eu cheguei, há muitos anos lá para trás no tempo, ela doeu-se. De alegria.
Quando ela partiu, hoje, eu doo-me. De tristeza.
Até um dia.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O ESPÍRITO NATALÍCIO

O Natal está aí e, portanto, está aberta a época de caça própria do espírito natalício. A publicidade nos “ecrãs” vai direccionar-se em força para os miúdos estimulando o consumo a que os pais dificilmente resistem.
Será ingénuo pensar que quem produz e promove produtos para crianças e quem gere os “ecrãs”, assuma uma preocupação com o equilíbrio entre o natural interesse dos mais novos por brinquedos e a natural vontade dos pais de proporcionarem prendas aos filhos, sobretudo numa época, o Natal, que está transformada num centro comercial decorado a vermelho e com barbas e num tempo em que cada vez mais “só se é o que se tem” e “ter mais é ser mais”.
Contudo, acredito que podemos fazer alguma coisa junto dos pais e dos putos para tentar atenuar os efeitos deste cenário. As escolas poderiam ter um trabalho interessante debatendo, se tivesse tempo, com os miúdos, de todas as idades e de forma adequada, o papel da publicidade nas escolhas e nos gostos deles promovendo uma atitude mais consciente e crítica destes processos.
Poderia também ser interessante conversar com os pais sobre o papel dos “presentes” nas relações familiares, isto é, mais prendas não é igual a gostar mais, sobre o papel da publicidade e a forma de lidar com a pressão desencadeada pelos filhos depois de verem “os ecrãs”.

Talvez não seja claro mas a minha ideia não é estragar o Natal, é ter um Natal por medida em vez de um Natal pronto a consumir.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

UM DIA ...

 (Foto de Mico)

Um dia … Um dia … Um dia, também vou saber ler. Vou mesmo. Mas quem me vai ensinar? A minha mãe acha que eu não tenho jeito. A minha professora diz que eu não sou capaz. Alguns miúdos também dizem que eu não sou capaz. Mas eu sou, sou mesmo. Precisava que me ensinassem.

A ESCOLA ENGORDA, ENGORDA, UM DIA ...

E a escola continua a engordar, a engordar … até rebentar. É com reafirmada perplexidade que vou assistindo a este contínuo movimento de engordar a escola a escola com conteúdos a trabalhar, com os alunos.
Depois de há semanas e em resposta à ideia da Associação de Professores de Ciências Económico Sociais de criar “uma área disciplinar que promova, formalmente e de modo universal, a educação económica e financeira dos alunos” do ensino básico e secundário, o ME ter afirmado que no âmbito do projecto de flexibilidade curricular que está em desenvolvimento em 236 escolas serão abordados estes conteúdos chegou a vez da corrupção, sim da corrupção.
Li no DN que o Conselho de Prevenção da Corrupção lançará no próximo ano um Projecto-piloto com formação de professores para em seis escolas, cerca de 2000 alunos, promover um trabalho que se reflicta no combate à corrupção. Meritória ideia, temos um problema a escola resolve. Não, não a escola não resolve tudo.
Não está, evidentemente, em discussão a importância de que a educação de crianças e jovens envolva as diversas questões presentes na vida das comunidades, agora exemplificadas pela corrupção, antes pelo contrário.
No entanto e por diversas ocasiões tenho manifestado a minha reserva face ao entendimento de que tudo o que de alguma forma possa envolver os mais novos e a sua formação deva ser ensinado/trabalhado na escola. Esta visão obesa da escola não funciona, nem tudo pode ou deve ser transformado em disciplinas, conteúdos escolares, projectos, … para além de que a escola tem um conjunto de funções incontornáveis que tornam finita a sua capacidade de responder.
Sabemos que, independentemente das opções e visões ideológicas, uma das questões que no universo da educação estarão sempre em aberto é a que envolve os conteúdos e organização curricular. De facto, a velocidade de produção e acesso ao conhecimento e ao desenvolvimento, as mudanças nos sistemas e no quadro de valores das comunidades determinam a regular reflexão e ajustamento sobre o que a escola deve ensinar e trabalhar, sobretudo durante a escolaridade obrigatória.
Por outro lado, o tempo da escola e a competência da escola são finitos, isto é, a escola não tem tempo nem pode ou deve ensinar tudo. Lembram-se certamente das discussões sobre se matérias como educação sexual, educação cívica, literacia financeira (sim, não é a primeira vez que se fala disto), educação para a saúde, para citar apenas alguns exemplos, deverão, ou não, constituir-se como "disciplinas", conteúdos ou mesmo se devem integrar os currículos escolares.
Em princípio, independentemente dos conteúdos poderem ser mais ou menos pertinentes, vejo sempre com alguma reserva as propostas de introdução de mais uma disciplina, mais conteúdos, mais um manual, mais umas orientações, mais um programa de formação de professores, como se a escola, o currículo escolar, os conteúdos, as suas competências, pudessem continuar a engordar indefinidamente. E não se trata de um problema de recursos ainda que seja de considerar.
Como é evidente, pode dizer-se sempre que muitas destas questões podem integrar o trabalho escolar considerando até que os alunos passam um tempo imenso, diria excessivo, nas escolas. Aliás, tal acontece em muitas escolas e agrupamentos.
A questão central, do meu ponto de vista, é que as competências da escola, os conteúdos que nela são trabalhados, integrando ou não formalmente os currículos, não podem mesmo aumentar continuamente. Urge uma reflexão serena, participada e com tempo sobre o ajustamento dos conteúdos, a sua integração e organização, a forma como podem acomodar a diversidade dos alunos e a necessidade de diferenciação dos professores, a formação global dos alunos e não exclusivamente a promoção de competências instrumentais, etc.
Somar conteúdos e competências à escola sem ajustamento dos conteúdos e organização existentes, pode promover problemas e não soluções, de tanto que lhe exigem corre risco de não providenciar o que lhe compete.
Na verdade, nem tudo o que pode ser interessante ou importante saber ou conhecer terá de caber numa disciplina ou num conteúdo escolar formal e nem tudo o que se pode saber e conhecer se aprende na escola.
Tenho uma visão da escola centrada no TODO do aluno e não no "ensino" do TUDO que o aluno deve saber ou conhecer.
A dificuldade é que os alunos estão muito tempo na escola e a tentação é óbvia, a escola que faça.
Quanto o combate à corrupção, bom, essa é uma outra conversa.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

OS CAMINHOS DA EDUCAÇÃO

Apesar dos resultados positivos que se registaram nos estudos comparativos internacionais PISA (Programme for International Student Assessment) e TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Study) de 2015, que se saúdam, têm vindo a ser divulgados dados de outros dispositivos de avaliação dos alunos portugueses que nos devem colocar em alerta.
Ontem conhecemos os resultados de 2016 do PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study) sobre a literacia em leitura aos 9/10 anos e verificou-se que apesar de se situar acima da média o resultado dos alunos portugueses baixou 13 pontos passando da 19ª posição em 2011 para a 30ª em 2016.
Em Maio a Direcção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência divulgou um estudo “Resultados escolares por disciplina - 2º ciclo - ensino público" relativo ao ano de 2014/2015. Para além de outros dados, salienta-se que a Matemática é claramente a disciplina que os alunos têm menor desempenho. Cerca de 30% dos alunos tiveram resultado negativo e é também a disciplina em que os alunos sentem mais dificuldade em recuperar, passar de resultado negativo para resultado positivo.
Registe-se ainda a relação entre o desempenho escolar e o contexto socioeconómico familiar, no 5º ano 44% dos alunos no escalão máximo de acção social escolar tiveram negativa a Matemática, 28% dos alunos no segundo escalão e 16% não envolvidos em dispositivos de apoio.
Mais recentemente foram conhecidos os mesmos dados relativos aos alunos que estavam no 3º ciclo em 2014/2015 que replicam o padrão já verificado no trabalho sobre o 2º ciclo.
Em termos globais o chumbo atinge 13.1% dos alunos no ciclo. Por anos, o 7º é o que regista maior retenção, 16.7%, também é verificado nos anos iniciais de cada ciclo. Embora no 8º e 9º a retenção diminua tal não parece decorrer de trabalho de recuperação mas do facto de muitos alunos retidos no 7º serem encaminhados para outros trajectos escolares.
Ao nível dos aspectos mais finos da retenção é relevante que 66% dos alunos que chumbam no 7º ano reprovam a seis ou mais disciplinas sendo a Matemática a que apresenta indicadores mais pesados. No entanto, se o critério for de cinco disciplinas ou mais a taxa passa para uns dramáticos 85% que, evidentemente, são altamente condicionantes de um trabalho de recuperação bem-sucedido.
Um outro dado, também em linha com o que se verificou no 2º ciclo e sem surpresa, é a fortíssima associação entre os altos níveis de retenção e a mais disciplinas e as condições socioeconómicas familiares. De facto, em todas as disciplinas no 7º ano os alunos que reprovam e estão incluídos no Escalão A da Acção Social escolar (famílias co menores rendimentos) são o dobro de alunos com negativas mas não abrangidos pela Acção Social Escolar.
É este cenário inquietante mas que não surpreende que me leva, tal como afirmei em texto de ontem, a aguardar com alguma expectativa os dados do PISA de 2018 que incluirá muitos dos alunos agora retratados.
Finalmente os resultados das provas de aferição também levantam inquietações, apesar da prudência sobre a sua leitura a que na altura nos referimos,  a sua eventual contaminação pela representação que os discursos sobre as provas de aferição podem ter provocado nos alunos e famílias  no sentido da sua desvalorização, por exemplo. Os resultados são preocupantes em todas as áreas avaliadas à excepção das Expressões Artísticas e Motoras. O Ministério já divulgou um conjunto de medidas a desenvolver destacando a promoção da formação de professores, sempre a formação de professores como resposta mágica, tão mágica como os exames, muitos exames, como garantia de qualidade só por existirem.
Os alunos que agora responderam às provas de aferição serão avaliados no PISA de 2018, 2021.e 2024 e passaram globalmente pelao efeito das metas curriculares e da examocracia desde 2011 e 2012.
Veremos se conseguimos manter a trajectória de sucesso que vinha a registar-se até 2015, gostaria de estar mais confiante.

ACREDITAR NO PAI NATAL

A imprensa, tal como muitas outras áreas tem produtos sazonais. Um exemplo são as peças dedicadas à crença no Pai Natal e eventuais efeitos. Que me desse conta a época deste ano é inaugurada pelo DN com o qual, aliás, já colaborei em anos anteriores sobre esta questão.
Na peça de hoje e como é habitual são ouvidos alguns profissionais na área da infância que, genericamente, não entendem, e bem, haver qualquer problema nessa crença mágica das crianças.
Também faz parte da agenda desta época o surgimento de algumas peças na comunicação social sobre as crenças das crianças no Pai Natal. Nesses trabalhos é frequente ouvirmos as crianças afirmar convictamente a sua crença no Pai Natal bem como pais que, conforme as suas convicções, alimentam ou desincentivam a crença no Pai Natal.
No entanto, deixem-me afirmar com toda a certeza. Os miúdos acreditam no Pai Natal. Eu tenho a certeza, já fui Pai Natal e vi, senti, como eles acreditavam em mim.
Nunca percebi muito bem porquê, mas ao longo da minha vida desempenhei várias vezes a função, a escolha dever-se-ia, provavelmente, à proeminente mochila que carregava à frente, agora um pouco mais pequena, felizmente, e às barbas brancas que de há muito me acompanham.
Não pensem que é uma tarefa fácil, não é não senhor. Passar umas horas dentro de um fato quentíssimo com umas barbas ainda mais quentes que insistem em deixar a boca cheia de pêlos não é muito simpático. Mas os miúdos acreditam no Pai Natal e isso ajuda a aliviar o desconforto. Felizmente, naquela altura ainda não tinham inventado os Pai Natal que sobem às varandas, caso assim fosse desistiria mesmo, sou um rapaz demasiado pesado para o alpinismo, dado a vertigens sendo ainda que as noites são demasiado frias para se poderem passar pendurado na varanda de cada um.
Numa das vezes em que fui Pai Natal de serviço, há já muitos anos, cena de que ainda possuo uma memória perfeita, lembro-me do ar aflito e preocupado de um gaiato que insistiu o tempo todo junto de mim para que não me esquecesse do que queria como presente, Moto Ratos, creio que se tratava de umas personagens de banda desenhada em voga na altura.
E o miúdo, sempre que me lembrava os Moto Ratos e fazia-o sempre que comigo se cruzava, tal era o desejo, explicava-me com os olhos muito abertos e com muitos gestos como se ia para casa dele para eu não me enganar no caminho. E não me enganei, Pai Natal que é Pai Natal cumpre sempre. Confirmei depois que ele recebeu os desejados Moto Ratos, claro, o Pai Natal não falha.
Deve ser bom acreditar no Pai Natal. Aliás, deve ser bom acreditar. Por isso, disse num dos trabalhos em que colaborei, deixem as crianças acreditarem no Pai Natal até que queiram ou que precisem. Não lhes roubem o encanto em nome de um qualquer conjunto de pseudo-modernices educativas.
Vão ter o resto da sua vida para acreditar e desacreditar, para desacreditar e voltar a acreditar.
Provavelmente, numa busca incessante pelo encanto perdido quando descobrimos que o Pai Natal não existe.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

ESTAMOS A LER PIOR OU A LER POUCO

Foram conhecidos os resultados de 2016 do estudo Progress in International Reading Literacy Study (PIRLS),promovido pela International Association for the Evaluation of Educational Achievement.
O estudo analisa as competências de literacia em leitura e interpretação no 4º ano e é realizado de 5 em 5 anos envolvendo 50 países.
Parece relevante e exige reflexão que apesar de se situar acima da média o resultado dos alunos portugueses baixou 13 pontos passando da 19ª posição em 2011 para a 30ª em 2016.
No entanto, os alunos portugueses apresentam indicadores muito elevados, por exemplo, em “gosto pela leitura”, “empenho nas aulas” e forte “sentimento de pertença à escola” o que indicia uma relação globalmente positiva com a escola e com a aprendizagem.
O ME apressa-se a relacionar este desempenho com as medidas educativas do período em análise de que relevam a definição das metas curriculares e dos exames final do 1º ciclo.
Tal como acontece com a luta pela paternidade dos bons resultados é necessária alguma prudência na análise de resultados menos positivos e no remeter para a formação de professores a solução das dificuldades. Aliás, os próprios dados evidenciam o peso de variáveis como "recursos disponíveis" nos contextos familiares".
Os que por aqui passam com regularidade lembrar-se-ão de intervenções recorrentes relativas à forma e conteúdo das metas (não da sua existência) e da falta de convicção que o exame final, só por existir fosse condição para melhoria. No entanto, também tenho dito que alterar currículo e acabar com o exame só por si nada garante.
Estou perfeitamente à vontade porque desde o início afirmei que as metas curriculares, tal como estão definidas, são parte do problema e não parte da solução. Trabalhos como o da Professora Dulce Gonçalves da Universidade de Lisboa sobre o 1º ciclo, a posição da esmagadora maioria das associações profissionais de professores e o contacto com muitos professores e escolas mostram a tremenda dificuldade criada a professores e alunos pela forma como estão definidas as metas curriculares.
No caso do 1º ciclo em Matemática foram definidos 3 domínios que se desdobravam como segue. No 1º ano, em 8 sub-domínios, 13 objectivos e 62 descritores, no 2º ano em 11 sub-domínios, 22 objectivos e 82 descritores, no 3º ano em 11 sub-domínios, 22 objectivos e 98 descritores e no 4º ano em 6 sub-domínios, 15 objectivos e 81 descritores o que em síntese corresponde a 72 objectivos e 323 descritores para Matemática do 1º ciclo.
Se juntarmos Português teremos um total de 177 objectivos e 703 descritores. Por anos, temos: no 1º ano, 33 objectivos e 143 descritores; no 2º, 47 objectivos e 168 descritores; no 3º, 51 objectivos e 202 descritores e no 4º, 46 objectivos e 190 descritores. É obra, uff.
O Programa de Português para o ensino Básico estabelece perto de 1 000 metas curriculares,
Este entendimento, sempre o referi, poderia conduzir a que o ensino se transforme na gestão de uma espécie de "check list" das metas estabelecidas implicando a impossibilidade de acomodar as diferenças, óbvias, entre os alunos, os seus ritmos de aprendizagem e com efeitos eventualmente negativos.
As metas curriculares, com esta ou outra designação podem e devem funcionar como uma ferramenta orientadora e útil para o trabalho de alunos e professores. Para que isso aconteça deverão ser de simples utilização e operacionalização e decorrentes de modelos curriculares diferentes dos actuais, demasiado extensos, prescritivos e espartilhados.
No âmbito da aprendizagem da leitura e também da escrita algumas das  dificuldades experimentadas pelos alunos nesse processo radica em muitas situações no facto de, independentemente de questões relacionadas com as metodologias que foram sendo utilizadas pelos professores, das suas opções e competências na didáctica da Língua portuguesa, muitos os alunos, de uma forma geral, lêem e escrevem pouco.
Podemos aduzir uma série de razões para que isto aconteça, questões que decorrem da concorrência da actividade de leitura e escrita com outras actividades ou meios percebidas aos olhos dos alunos como mais apelativas, poucos hábitos de leitura no ambiente familiar, alguns equívocos nas concepções sobre práticas pedagógicas que levaram a que durante algum tempo, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade, se descurasse, mesmo quando tal era possível, a actividade de leitura individual e à escrita na sala de aula por parecer “conservador” ou “pouco activo”, etc.
Por outro lado, actualmente, estamos num tempo em que desde o 1º ciclo, a pressão sobre a escola, a natureza e extensão dos conteúdos curriculares e a visão que os informa, o estabelecimento de metas curriculares de forma excessiva e burocratizada, além de outra variáveis como o tempo passado na escola ou a pressão da avaliação externa, criam algumas dificuldades a professores e alunos no sentido de se estruturarem espaços e tempo de leitura e escrita que não sejam no cumprimento estrito das metas e dos manuais ou, naturalmente, fora das actividades lectivas.
Com o pouco tempo disponível e com a concorrência fortíssima de outras actividades a tarefa não é fácil.
Muitos professores, designadamente no 1º ciclo e os de Português nos anos seguintes, referem justamente que seria desejável que os alunos tivessem mais tempo para ler e escrever em contextos e actividades "livres" dos manuais ou das obras prescritas pelo programa. Os mais novos, e não só, lêem e escrevem pouco e esses hábitos são persistentes. Apesar de alguns ganhos observados no âmbito do Plano Nacional de Leitura.
Mas mais do que as razões, e todas contribuirão para a situação que temos, é importante, diria imprescindível, que nos convencêssemos todos, professores, pais e outros actores, que só se aprende a ler, lendo, só se aprende a escrever, escrevendo, só se aprende a andar, andando, só se aprende a falar, falando, etc., etc.


VARIAÇÕES SOBRE ANTÓNIO

A Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra vai realizar no final da semana um Colóquio “Variações sobre António”, centrado no trabalho de António Variações que partiu em 1984. Produziu uma obra curta mas, também do meu ponto de vista, inovadora e de grande qualidade.
Sublinho a iniciativa da Universidade de Coimbra de valorizar a obra de António Variações contribuindo para um reconhecimento que é justo. Não é muito habitual entre nós que da academia surjam iniciativas sobre as expressões artísticas mais “pop” designadamente na área da música.
Era um homem inquieto e atento, como todos os criadores.
Dizia ele em “Estou além”:
(…)
Vou continuar a procurar o meu mundo,
o meu lugar
Porque até aqui eu só
Estou bem
Aonde não estou
(…)

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

OS CAMINHOS DA HISTÓRIA

A História tem caminhos muito curiosos.
Será que há dois anos atrás alguém poderia antecipar que o Ministro das Finanças de um Governo português liderado pelo PS, com o apoio parlamentar do BE e do PCP, também conhecido por “geringonça”, seria eleito presidente do Eurogrupo?
Ainda mais interessante seria perguntar isso a Jeroen Dijsselbloem, o falcão a quem Mário Centeno vai suceder.
Depois desta trajectória aguarda-se com alguma curiosidade o funcionamento e as posições do Eurogrupo no quadro da política europeia, em particular no combate a assimetrias e a desigualdades entre o Norte e o Sul.

A REINCIDÊNCIA, SÓ PRENDER NÃO BASTA

Foram conhecidos dados ainda não definitivos, só em 2019, de um trabalho ”O Projecto Reincidências – Avaliação da Reincidência dos Jovens Ofensores e Prevenção da Delinquência” desenvolvido desde 2014 pela Direcção-Geral da Reinserção e Serviços Prisionais em colaboração com a Universidade do Minho com o objectivo de estudar a reincidência ou desistência de comportamentos delinquentes por parte de adolescentes dos d0s 12 aos 15 anos abrangidos por uma medida tutelar educativa com internamento em Centro Educativo.
Já aqui tinna referido alguns dados conhecidos há algum tempo e que agora se confirmam. Foram acompanhados 1403 jovens e do volume significativo de informação releva que 33.2% reincide em comportamentos de delinquência podendo ser mais pois é possível que jovens inquiridos em 2014 possam ainda reincidir.
É importante referir que um aspecto que pode marcar a diferença entre reincidir ou desistir de um trajecto de delinquência é o apoio e suporte à saída do Centro Educativo depois de cumprida a medida tutelar
Aliás, sempre que estas matérias são discutidas, os especialistas acentuam a importância da prevenção e da integração comunitária como eixos centrais na resposta a este problema sério das sociedades actuais pelo que a resposta recentemente criada, (mas creio que ainda só no papel) “casas de autonomização” pode constituir-se como um contributo se dotada de recursos adequados.
Acresce que os Centros Educativos sentem ainda forte constrangimento em matéria de recursos humanos pelo que mais dificilmente cumprem o seu papel fundamental de reabilitação através da construção de programas de educação e formação profissional.
Ainda de acordo com um estudo divulgado há algum tempo realizado no âmbito do Programa de Avaliação e Intervenção Psicoterapêutica no Âmbito da Justiça Juvenil, promovido pela Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais e co-financiado pela Comissão Europeia, a população que está nos Centros Educativos acumula, em geral, mais de três anos de chumbos na escola e em 80% dos casos é oriunda de famílias de baixo estatuto socioeconómico.
As Comissões de Protecção de Crianças e Jovens sentem-se incapazes de acompanhar o volume de casos das respectivas comunidades, gerando situações, muitas conhecidas, com fim grave de crianças que depois ficamos a saber, os dados de hoje confirmam-no, que estavam “sinalizadas” ou “referenciadas”, mas sem resposta.
Sabemos que educação, prevenção e programas comunitários e de integração têm custos, no entanto, importa ponderar entre o que custa prevenir e cuidar e os custos posteriores do mal-estar e da pré-delinquência ou da delinquência continuada e da insegurança.
Parece ser cada vez mais consensual que mobilizar quase que exclusivamente dispositivos de punição, designadamente a prisão, parece insuficiente para travar este problema e, sobretudo, inflectir as trajectórias de marginalização de muitos dos envolvidos mais novos em episódios de delinquência.
No entanto a discussão sobre estas matérias é inquinada por discursos e posições frequentemente de natureza demagógica e populista alimentados por narrativas sobre a insegurança e delinquência percebida, alimentadora de teses securitárias.
Apesar de, repito, a punição e a detenção constituírem um importante sinal de combate à sensação de impunidade instalada, é minha forte convicção de que só punir e prender não basta.
É em todo este caldo de cultura que nascem e se desenvolvem as sementes de mal-estar que geram os episódios que regularmente nos assustam e inquietam e com consequências sérias.
É urgente que nos questionemos e questionemos as instituições, em nome dos nossos filhos e dos filhos dos nossos filhos.
Recordo Brecht, "Do rio que tudo arrasta diz-se que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem".

NÃO MATEM O FUTEBOL

Não é matéria que aqui aborde com frequência mas é umas das minhas paixões, o futebol.
Talvez por isso da última vez que o fiz, em Setembro, o texto tinha como título “Não matem essa coisa linda, o futebol”. Pois parece que querem mesmo liquidar o futebol. O fim-de-semana foi marcado por graves incidentes com adeptos, agressões a árbitros, tudo o que se antecipava e não ficará certamente por aqui.
Na altura, a propósito de um apelo de contenção do presidente da Federação Portuguesa de Futebol dirigido aos responsáveis clubísticos escrevi que o alerta vinha tarde, as estruturas directivas e reguladoras são parte do problema embora, evidentemente, se espere que façam parte da solução.
Na verdade, também no desporto, em particular no futebol, os tempos andam feios, por cá e por fora. Estranho seria se assim não fosse.
A minha paixão pelo futebol vai resistindo mal aos maus tratos que vai recebendo. São recorrentes e progressivamente mais radicalizados e violentos os comportamentos e discursos que o envolvem para além da componente negócio que também desempenha um papel importante no clima criado.
A espiral de gravidade dos episódios que já se anunciava começa a confirmar-se da irracionalidade e do ambiente de hostilidade e ódio instalados. Os mais recentes episódios envolvendo as claques e as direcções do Benfica, Porto e Sporting mas não só mostram quão próximo podemos estar acontecimentos ainda mais graves.
Há algum tempo a imprensa referia (desejava) que os clubes, leia-se as suas direcções, pudessem tomar medidas face ao comportamento de alguns, muitos, energúmenos que fazem parte das suas claques.
É no mínimo ingénuo acreditar nisto. As direcções e os seus empregados e porta-vozes, os seus discursos, comportamentos e decisões são também parte substantiva do problema, não podem ser parte da decisão.
A mediocridade da generalidade dos dirigentes produz discursos e comportamento que inflamam muitos dos apoiantes, apoiam e organizam as suas actividades. Servem-se deles para os jogos de poder e devem-lhes isso.
É um mundo em que não existem santos e pecadores. Talvez a bola seja o elemento mais são deste universo apesar de tantas vezes também ser maltratada.
Já dificilmente me mobilizo para ir a um estádio, não consigo assistir aos milhentos programas televisivos onde opinadores avençados, salvo algumas raras excepções, vão papagueando agendas encomendadas e se envolvem em obscenas trocas de agressões e boçalidades que são mais um alimento para o clima instalado de ódio, hostilidade e agressividade.
O problema é que não consigo não continuar fascinado com esse jogo estranho chamado futebol. Por isso me inquieta tudo isto. Não dêem cabo do futebol.

domingo, 3 de dezembro de 2017

DIA INTERNACIONAL DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

A agenda das consciências determina que hoje se cumpra o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência. Como sempre, umas notas que não se desactualizam, lamentavelmente.
Talvez menos do que o habitual. é Domingo, durante o dia de hoje surgirão peças na comunicação social, ouvir-se-á alguma da retórica política aplicável à matéria em apreço com referência a iniciativas ou intenções, teremos até alguns testemunhos, positivos e negativos, de pessoas com deficiência.
Assistiremos a algumas eventos das instituições e movimentos que operam nesta área, referir-se-ão alguns avanços de natureza tecnológica, como se sabe as tecnologias mudam mais depressa que as pessoas e amanhã o mundo volta-se para outra questão que a agenda das consciências determine. Participei em algumas iniciativas e tive de recusar convites para outras.
Em primeiro lugar deve dizer-se que, como acontece em outras áreas, a legislação portuguesa é globalmente positiva (no caso da educação tem alguns aspectos a carecer de ajustamento pois são facilitadores de exclusão como muitas vezes tenho defendido) e promotora dos direitos das pessoas, mas a sua falta de eficácia e operacionalização é bem evidenciada na tremenda dificuldade que milhares de pessoas experimentam no dia-a-dia. Durante este ano regista-se o avanço na legislação sobre a independência e autodeterminação e apoios sociais.
No entanto e como exemplo é notória a falha na fiscalização e cumprimento das disposições legais relativas às questões das acessibilidades e barreiras nos edifícios, mobiliário urbano e acessibilidade em geral. As normas de construção não são respeitadas, mantendo-se em edifícios novos a ausência de rampas ou a sua existência com desníveis superiores ao estabelecido, constituindo, assim, um risco sério de queda.
O resultado é a existência de muitos serviços públicos e outro tipo de equipamentos de prestação de serviços com barreiras arquitectónicas intransponíveis, a que os cidadãos com deficiência só podem aceder com ajuda de terceiros e, mesmo assim, com dificuldade.
Os transportes públicos de diferente natureza também colocam enormes problemas na acessibilidade por parte de pessoas com mobilidade reduzida.
Para além deste quadro, suficientemente complicado, ainda há que contar com a prestimosa colaboração de muitos de nós que estacionamos o belo carrinho em cima dos passeios, complicando ou proibindo, naturalmente, a circulação de cadeiras de rodas. Os passeios, nem sempre com as medidas determinadas por lei, são, por vezes e quase na totalidade, ocupados com esplanadas que, claro, são só mais uma dificuldade para muita gente.
A vida de muitas pessoas com deficiência é uma constante e infindável prova de obstáculos, muitas vezes intransponíveis, que ampliam de forma inaceitável a limitação na mobilidade que a sua condição, só por si, pode implicar. No entanto, muitos dos obstáculos têm a ver com barreiras físicas, remetem para a falta de senso, incompetência ou negligência com que gente responsável(?) lida com estas questões.
Na verdade, boa parte dessas dificuldades decorre do que as comunidades e as suas lideranças, políticas por exemplo, entendem ser os direitos, o bem comum e o bem-estar das pessoas, de todas as pessoas.
Também para as crianças com deficiência e respectivas famílias a vida é muito complicada face à qualidade e acessibilidade aos apoios educativos e especializados necessários apesar do empenho e profissionalismo da maioria dos profissionais que trabalham nestas áreas. Os tempos que correm são particularmente gravosos nesta matéria como muitas vezes tenho afirmado.
Como é evidente, existem muitas outras áreas de dificuldades colocadas às pessoas com deficiência, designadamente apoios sociais, qualificação profissional e emprego, em que a vulnerabilidade e o risco de exclusão são elevados traduzido em taxas de desemprego entre pessoas com deficiência muitíssimo superiores à verificada com a população sem deficiência.
Uma referência ainda ao que deve ser um princípio não negociável, a inclusão em todos os domínios da vida das comunidades.
É verdade, como escrevia há pouco que a questão da inclusão, em particular da inclusão em educação, é presença regular nos discursos actuais. É objecto de todas as apreciações, ilumina todas as perspectivas e acomoda todas as práticas, incluindo, cá está a inclusão, o que manifestamente não promove inclusão, antes pelo contrário. O termo está tão desgastado que já nem sabemos bem o que significa. Conheço tantas práticas e tantos discursos que alimentam exclusão e que são desenvolvidas e enunciados ... em nome da inclusão. Cada vez mais me lembro do Mestre Almada Negreiros que na "Cena do Ódio" falava da "Pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões".
A inclusão assenta em cinco dimensões fundamentais, Ser (pessoa com direitos), Estar (na comunidade a que se pertence da mesma forma que estão todas as outras pessoas), Participar (envolver-se activamente da forma possível nas actividades comuns), Aprender (tendo sempre por referência os currículos gerais) e Pertencer (sentir-se e ser reconhecido como membro da comunidade). A estas cinco dimensões acrescem dois princípios inalienáveis, autodeterminação e autonomia e independência.
As pessoas com deficiência não precisam de tolerância, não precisam de privilégios, não precisam de caridade, precisam só de ver os seus direitos considerados. Os direitos não são de geometria variável cumprindo-se apenas quando é possível.
Este é o caderno de encargos que nos convoca a todos, todos os anos, todos os dias.

sábado, 2 de dezembro de 2017

O NATAL ESTÁ QUASE AÍ

O jornal televisivo a que assisti neste tempo de almoço por aqui no monte para além do incontornável destaque à morte do Zé Pedro e da referência ao Porto-Benfica de ontem deu algum espaço às inaugurações das iluminações natalícias de Lisboa e Porto e dos planos das autarquias para o “espírito natalício” que incluem, evidentemente, as tão nossas pistas de gelo.
Aproveito esta entrada no espírito natalício e facto de crianças e adolescentes se tornarem os grandes protagonistas e destinatários da época para recuperar uma crónica que escrevi para a Visão online por esta altura no ano passado. Desculpem a repetição mas parece-me oportuno.
Um excerto.
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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O INFERNO DA POBREZA

Eu sei que estamos entrar no espírito natalício e no que lhe assiste. Durante a manhã a caminho do Alentejo ouvia as notícias no rádio do carro e a informação sobre trânsito registava alguns congestionamentos junto de zonas comerciais. Elucidativo.
Assim sendo, não querendo perturbar e antes de entrarmos mais no espírito natalício apenas uma brevíssima referência ao trabalho do INE, “Inquérito às Condições de Vida e Rendimento”, elaborado com dados de 2016 e ontem divulgado.
A percentagem de cidadãos em risco de pobreza baixou para 19% em 2015 para 18.3% e, como sempre, os mais vulneráveis continuam a ser crianças, jovens e idosos. É manifestamente pouco mas é positivo.
Os agregados familiares com crianças apresentam risco de pobreza acrescido, 19.7% face a 16.9% nas famílias sem filhos. Se existirem três ou mais filhos e dois adultos ou um adulto e pelo menos uma criança o risco de pobreza sobe para uns dramáticos 41.4% e 33.1%. Percebe-se bem uma das razões da baixa natalidade.
Apesar de menor desemprego o risco de pobreza entre a população desempregada subiu de 2015 para 2016 2.8%.
É ainda de registar que se apenas fossem considerados os rendimentos de trabalho, de capital ou transferências privadas (não se considerando, portanto, apoios sociais públicos) o risco de pobreza em 2016 atingiria 45,2% da população.
Dá para perceber que o Programa de Empobrecimento a Tempo Inteiro através das chamadas Actividades de Empobrecimento Familiar ao abrigo de um desígnio de fundamentalismo austeritário deixou profundas marcas.
Mesmo os responsáveis internacionais e mentores desse fundamentalismo, o FMI por exemplo, têm reconhecido o impacto brutal dessas políticas na vida de tanta gente e irresponsavelmente acusada de viver acima das suas possibilidades passou a viver abaixo das suas necessidades.
Na verdade, parece cada vez mais claro que a ideia do TINA “- There Is No Alternative era uma mentira mil vezes repetida para se tornar verdade.
As políticas duras de austeridade que esqueceram pessoas, famílias e pequenas empresas, promoveram desigualdade, pobreza e exclusão foram uma escolha política, não eram um caminho único.
Joseph Stiglitz, Nobel da Economia em 2001, afirmou na Gulbenkian isso mesmo, o resultado destas opções por políticas de austeridade foram a desigualdade e a pobreza.
Afinal … havia outra.
Havia e há outra política possível. Talvez ainda estejamos a tempo. Não se esqueçam que quase um em cada cinco portugueses vive em risco de pobreza.
Pronto, preparemo-nos para o espírito natalício.

INDEPENDÊNCIA E SOBERANIA

Hoje é dia 1 de Dezembro. É feriado, de novo. Assinala a Restauração da Independência de Portugal, lá para os idos de 1640.
Como se sabe, o feriado de 1 de Dezembro tinha sido engolido na manhosa e equivocada ideia de que o caminho é mais trabalho em vez de melhor trabalho, o que vai ao arrepio do que se passa noutras latitudes donde curiosamente são quem habitualmente ordena sobre ... o que se passa connosco.
Na verdade, lembrarmo-nos da independência nacional quando o cenário mostrava e mostra uma soberania revista em baixa até seria, por assim dizer, estranho. Daí, nada de comemorar independência.
O feriado foi reposto. Realizar-se-ão algumas iniciativas destinadas a registar a independência e ficaremos em paz e com um dia para adiantar compras de Natal ou apanhar ar apesar do frio
Precisamos de restaurar o que de soberania tem sido alienado.
É mais difícil do que repor o feriado do dia primeiro do mês de Dezembro.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

PARTIU O ZÉ PEDRO

Partiu o Zé Pedro, sim, o Zé Pedro, o dos Xutos.
Os Xutos estiveram sempre aqui e certamente continuarão a estar. Como costumo dizer, fazem parte da banda sonora da minha vida.
Como diria uma figura enorme da nossa cultura, o João Bénard da Costa, os Xutos são aqui de casa.


DOS ESTUDOS E DA EVIDÊNCIA

De há uns tempos para cá instalou-se de forma mais generalizada o recurso a “Segundo um estudo …”, “De acordo com um estudo …”, “Foi divulgado um estudo que …” ou a outras variações do mesmo tema, para afirmar ideias ou opiniões. A educação não escapa a este tipo de funcionamento.
Neste espaço faço-o com alguma frequência, também.
Mais recentemente, importa ir actualizando, deixámos de referir os estudos e passamos a usar a “evidência”, ou seja, “Segundo a evidência ...”, “De acordo com a evidência …”, “A evidência mostra …”, etc.
O que me parece curioso é que se mantém a tentação de com alguma frequência se construir, interpretar e divulgar os estudos para mostrar … a evidência desejada.
Na educação, também.
Este “desabafo” não tem a ver evidentemente com a necessidade e a qualidade da generalidade dos estudos, tenho realizado alguns, orientado muitos e ainda leio regularmente muitos outros. O desabafo decorre exactamente disto e do que fazemos com os dados.
Recordo um velho professor pertencente a uma prestigiada universidade francesa que numa aula nos dizia qualquer coisa como, “o investigador tortura os dados até eles confessarem”.
E, de facto, é curioso analisar muitos estudos e, sobretudo, a forma como os seus dados são interpretados, por vezes com leituras opostas.
Quase sempre uma questão de agenda.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

DOS NÚMEROS NA EDUCAÇÃO

Um estudo do ISCTE, tinha que ser, encomendado, gosto do encomendado, pelo ME estima em cerca de 84 milhões o custo da redução global, totalidade do básico e secundário, de dois alunos por turma que já se iniciou nos TEIP.
Este acréscimo orçamental é compensado segundo o estudo pela redução de 124 milhões de euros que se considera consegui com o abaixamento em 50% do número de retenções de acordo com as metas estabelecidas para 2021no âmbito do Programa de Promoção do Sucesso Escolar.
Antes de umas notas relativas aos números da educação reafirmar a importância de um outro aspecto que me parece negligenciado, o número de alunos por professor. Muitos professores lidam com muitas turmas perfazendo números acima dos 120 ou 150 alunos. Parece dispensável explicitar as implicações negativas desta situação.
Como há dias escrevi, reduzir o número de alunos por turma é uma medida justificada. A revisão de estudos sobre esta matéria mostra o que também conhecemos, existem vantagens em turmas de menor dimensão que podem ser mais ou menos significativas em função das variáveis em análise.
Parece-me de acentuar que os estudos sugerem com clareza a existência de impacto positivo no clima e comunicação na sala de aula, na maior facilidade de práticas educativas mais diferenciadas, no comportamento dos alunos, etc., o que, evidentemente deve ser considerado.
Alguns estudos, apenas centrados em resultados, não encontram diferenças significativas mas também me parece que não são consideradas variáveis importantes, de contexto por exemplo, o que nem sempre é tido em conta nos discursos de alguns economistas da educação.
Por isso os estudos devem considerar outras variáveis que não penas o resultado estudar ele próprio dependente de múltiplos factores, o número de alunos por turma é um deles.
No entanto, é essencial reafirmar a autonomia das escolas, a única forma de considerar as diferenças de contexto, isto é, a população servida por cada escola, as características e dimensão da escola, a constituição do corpo docente, os recursos disponíveis, etc. A qualidade e sucesso do trabalho de professores e alunos depende de múltiplos factores, sendo que a dimensão do grupo é apenas um, ou seja, importa considerar, vejam-se relatórios e estudos nesta área, as práticas pedagógicas, os processos de organização e funcionamento da sala de aula e da escola, bem como o nível de autonomia de cada escola ou agrupamento, entre outros. Daí a importância de promover uma autonomia real. Aliás, dentro do que entendo por verdadeira autonomia das escolas, deveriam ser a ter a competência para definir e organizar as turmas embora aceite a existência de orientações nesse sentido.
Ainda no âmbito da autonomia das escolas poderiam ser consideradas outras opções como a presença de dois professores em sala de aula. Em algumas circunstâncias pode ser mais vantajosa que a redução do número de alunos por turma.
Acresce nesta matéria a importância da qualidade do trabalho em turmas com alunos com necessidades educativas especiais o que, evidentemente, deve ser considerado na análise do efectivo de turma, desde logo cumprindo o que está legislado.
É ainda essencial, não só por esta razão, dimensão das turmas e qualidade do trabalho dos alunos, de todos os alunos, e dos professores, que seja promovida uma verdadeira desburocratização do trabalho nas escolas e promovido algum ajustamento na sua organização e funcionamento o que certamente libertaria tempo de professores para trabalho em turma ou em apoios que promovessem qualidade.
Sei que mudanças neste sentido são politicamente difíceis mas parecem-me imprescindíveis. Terão custos certamente mas os custos do insucesso e da exclusão são incomparavelmente mais caros.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

A HISTÓRIA DO ZÉ NINGUÉM

Era uma vez um rapaz chamado Zé Ninguém. Logo de pequeno percebeu como naquela terra vivia quem era Ninguém. Na escola raramente se dava por ele, ficava no fundo da sala e passava despercebido. Muitos vezes os professores passavam as aulas sem falar com ele que também não se esforçava e pouco a pouco começou, como diziam, a ficar para trás. Ele que estava sempre atrás ficou ainda mais atrás. A família não estranhou, nem sequer sabia muito bem o que fazer, os Ninguém sempre assim tinham sido enquanto tiveram na escola de onde saíram logo que puderam.
Depois da escola o Zé Ninguém juntou-se a outros Ninguém e entre o nada fazer e a precisão da subsistência começou a viver entre o biscate indiferenciado, próprio de um Zé Ninguém e delinquência de ocasião que proporcionava alguns dividendos para além da adrenalina.
Ao chegar a esta fase da sua vida o Zé Ninguém ficou frente a duas estradas tendo de escolher qual percorrer.
Uma primeira estrada passaria por conhecer uma rapariga chamada Alguém por quem se apaixonaria e com construiria um projecto de vida que o devolveria à escola, lhe proporcionaria um trabalho, uma família e o transformaria finalmente em Alguém.
A segunda estrada por onde o Zé Ninguém poderia caminhar levá-lo-ia a progredir na carreira iniciada, o lado errado da vida, e a um dia ser capaz de realizar o grande feito, aquele que o transformaria, finalmente, em Alguém.
Não sei qual foi a escolha do Zé Ninguém. Podeis escolher vós, ele será sempre Alguém … mesmo sendo um Zé Ninguém.

DA INDIFERENÇA E DA DIFERENÇA

Estou de volta de umas notas preparatórias da colaboração de amanhã na Biblioteca Municipal do Barreiro num Mesa redonda “Vamos trocar a indiferença pela diferença” em que abordarei o universo da Educação. A iniciativa inscreve-se na Semana da Diferenç@ a decorrer no Barreiro e por coincidência tinha acabado de encontrar no Expresso um impressionante testemunho prestado por uma família que tem dois filhos, gémeos, com paralisia cerebral.
A capacidade de luta, o optimismo, a resiliência demonstrados por tantas famílias nestas circunstâncias são simultaneamente uma inspiração e um murro na indiferença e nas dificuldades que sentem mal acomodadas pelas comunidades e por políticas que desconsideram os seus direitos.
As crianças com necessidades especiais, as suas famílias e muitos dos professores e técnicos sabem, sobretudo sentem, um conjunto enorme de dificuldades para, no fundo, garantir não mais do que algo básico e garantido constitucionalmente, o direito à educação, à vida familiar e tanto, quanto possível, com padrões de vida próximos do que passa com toda gente, postulado com décadas de enunciado mas de concretização difícil e, às vezes, adiada. É assim que as comunidades estão organizadas, pelo que não representa nada de extraordinário e muito menos um privilégio.
Como é evidente, em situações de dificuldade económica, as minorias, são sempre mais vulneráveis, falta-lhes voz.
É sempre importante sublinhar que, falando de educação, a educação de qualidade deve ser para TODOS e TODOS devem aprender, crescer e participar juntos nas comunidades educativas a que pertencem.
Não é moda, não é privilégio, é uma questão de direitos que não são de geometria variável.
Não é uma utopia, é algo de uma simplicidade e realismo absolutos e simples de enunciar, os miúdos devem estar juntos e participar nas actividades da comunidade da forma que conseguem, acomodando as diferenças entre si, entre todos.
É também e de facto uma questão ideológica como todas as dimensões da vivência humana, pois envolve valores, não é uma questão "meramente" técnica, científica ou pedagógica.
Uma outra ideia prende-se com o envolvimento dos pais nestas questões e muito para além da acção, muitas vezes difícil, com os seus próprios filhos. Neste sentido, a construção de redes que funcionam como suporte, apoio, partilha e voz é um contributo verdadeiramente importante.
Na verdade, precisamos urgentemente de construir ou reconstruir comunidades, não só de pais, que funcionem em rede.
Também não é uma utopia, é "só" entendermos que assim deve ser.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

COISAS DA EDUCAÇÃO, O SABER E A DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA

Boa parte do que a imprensa e muitos opinadores tudólogos têm produzido sobre educação nos últimos dias, para além da indignação pela falta de seriedade intelectual, (não acredito na ignorância), tem-me causado alguma tristeza.
A educação e a sua qualidade são ferramentas essenciais de desenvolvimento. Apesar do que falta fazer e de situações que não deveriam acontecer, de políticas de sinal errado, alunos e professores têm evoluído positivamente no seu trabalho e constroem saber, ou seja, constroem o futuro.
Como diz Ordine no estimulante ”A utilidade do inútil”, “Só o saber pode desafiar uma vez mais as leis do mercado. Eu posso comungar com os outros os meus conhecimentos sem empobrecer…. Ensinar é um processo virtuoso que enriquece. Ao mesmo tempo, quem dá e quem recebe”.
Não, não é um discurso ingénuo ou romântico, estes anos todos de estrada dão-me alguma lucidez, creio. Os Professores e Educadores e de uma forma geral quem passou pela escola e não tem preconceitos ou agendas implícitas reconhece que é verdade.
No entanto, sei também que acontecem verdadeiros atropelos no quotidiano escolar. Entendo de há muito que um dos pecados estruturais do sistema é justamente a falta de dispositivos de regulação o que permite que coexistam na mesma escola a excelência e a mediocridade sem sobressaltos aparentes.
É assim triste que tantos e tão manhosamente ataquem quem, na sua esmagadora maioria, lhes leva os filhos ao futuro e os trouxe ao presente que têm.
Uma comunidade que não valoriza os seus professores e o seu trabalho é uma comunidade certamente mais pobre e menos desenvolvida. A Educação, o Conhecimento, a Formação são ferramentas de construção e distribuição de riqueza. Os professores e os alunos, futuros adultos, são os obreiros desta empresa. Respeitem-nos!

domingo, 26 de novembro de 2017

CASABLANCA

Li que passam hoje 75 anos da estreia do enorme Casablanca em Nova Iorque. O filme foi realizado por Michael Curtiz e teve Humphrey Bogart e Ingrid Bergman como protagonistas mais destacados.
Faz parte dos filmes da minha vida e já o revi vezes sem conta.
Sempre nos ocorrem referências como “Play it again Sam”, algo que se transformou num mito sem estar no filme, no simbólico “We’ll always have Paris” ou, naturalmente no tema “As times goes by”.
No entanto, a cena que ainda agora me emociona quando a revejo é ouvir a Marselhesa cantada no Ricks’café pela generalidade dos clientes por iniciativa do Victor Laszlo e com a aprovação do Rick para se sobrepor às canções entoadas por um grupo de militares nazis.
Não tenho tempo agora mas um dia destes vou rever pela enésima vez o Casablanca.


sábado, 25 de novembro de 2017

O MUNDO ÀS AVESSAS (Continuação)

As coisas nem sempre são o que parecem, o que pensamos que são ou mesmo o que gostávamos que fossem.
Na verdade, há pais que fazem mal aos filhos.
Na verdade, há filhos que fazem mal aos pais.
Na verdade, há professores que fazem mal aos alunos.
Na verdade, há alunos que fazem mal aos professores.
Na verdade, há velhos que fazem mal aos novos.
Na verdade, há novos que fazem mal aos velhos.
Na verdade, ...
Na verdade, há pessoas que fazem mal a pessoas.
Na verdade, ... o mundo é um lugar estranho e ... às vezes ... muito feio.
Parece que anda às avessas.
Apesar de tudo e sempre, talvez seja de recordar Mandela, “A educação e o ensino são as mais poderosas armas para mudar o mundo.”

UM SONHO OLÍMPICO

O apoio à preparação de atletas olímpicos é de geometria variável, ou seja, se forem atletas olímpicos têm acesso a um apoio social significativamente superior aos atletas olímpicos que são cidadãos com deficiência, chamam-lhes atletas paralímpicos. Na votação do OGE para 2018 a Assembleia da República chumbou com votos contra do PS e a abstenção do PSD um processo faseado de equiparação.
Ao que parece a razão é o brutal impacto financeiro da medida, 700 000 euros e a argumentação do “centrão” é patética, para ser simpático.
Também por estas razões insisto numa das minhas utopias, um dia teremos apenas Jogos Olímpicos em que todos as provas, de todos os desportistas, se realizem no mesmo espaço de tempo e nos mesmos espaços físicos de acordo, evidentemente, com as exigências específicas.
Não é impossível em termos de organização e assim como não consigo aceitar que uma piscina pública seja frequentada por um grupo de pessoas com deficiência em “horário próprio” com "pistas reservadas", também acho que as pessoas, todas as pessoas, podem competir num mesmo evento nas respectivas provas.
Lembro-me sempre da afirmação de Biesta, a história da inclusão é a história da democracia e, do meu ponto de vista, também passa por aqui.
Só depende de nós.
Sim, eu sei, é um sonho olímpico. Será, mas não é seguramente paralímpico.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

IMPERMEÁVEL E RESPIRÁVEL

Hoje cedo, ainda escuro e como acontece quase todos os dias saí para a minha caminhada, o tempo da corrida acabou, a coluna já não é o que era mesmo depois da cirurgia.
Estava ainda uma chuvinha leve abençoada nestes tempos feios de seca.
Apesar de ser daquela chuva que dizem que só molha tolos a minha auto-estima treme porque acho que molha mesmo.
Felizmente inventaram umas fibras que sendo praticamente impermeáveis se mantêm respiráveis e que nos permitiram dispensar aqueles casacos mais clássicos em nylon que quando não metiam água da chuva por fora, nos deixavam encharcados por dentro devido ao efeito de sauna.
Contente com esta cómoda solução têxtil e embalado pelo passo lento, lembrei-me de repente como seria interessante que se inventasse uma forma de proteger a vida dos miúdos das intempéries que alguns deles têm à volta e tornar a vida um pouco mais confortável. Poderia ser criado um dispositivo de protecção que fosse quase impermeável às agruras dos tempos maus, protegendo-os das mais pesadas pois também é preciso passar por algumas e que, ao mesmo tempo, fosse respirável, ou seja, não fosse um dispositivo que os mantivesse numa redoma estanque e os asfixiasse, mas sim algo que lhes permitisse continuar a respirar, a viver. Um dispositivo desta natureza seria um bem precioso.
Mas esta é uma ideia completamente disparatada que seguramente foi motivada pela água que entretanto fui apanhando na cabeça. Quem me mandou andar à chuva.

DO CONSUMO

Serei só eu a ficar cansado da movimentação e campanha em torno dessa bem portuguesa tradição do “Black Friday”?
Não pretendo entrar em discursos demagógicos ou moralistas mas assusta este exacerbar do consumo que alimenta muitas vezes o luxo do desperdício. E ainda falta o Natal que já não vem longe.
Certamente por deformação profissional sou levado a olhar para estas questões considerando também o seu impacto nos mais novos.
Como tem sido referido e estudado os mercados recorrem cada vez mais às crianças como estratégia para promover o consumo ... dos pais que mais dificilmente resistem às compras quando a ressão também vem dos filhos.
Não é um problema novo, todos os que lidamos com os mais novos sabemos de que se trata. Recordo que em 2015 a Direcção-Geral do Consumidor referia receber queixas sobre a utilização de crianças em publicidade mesmo em produtos que lhes não são destinados. Embora os pais não estejam suficientemente atentos a estratégia é apetecível aos especialistas em marketing e publicidade.
Na verdade, alguns estudos nesta matéria, sugerem, surpreendentemente, que as crianças até aos 7 anos podem influenciar até 70% das decisões de compra da família, mesmo quando se trata de produtos que não lhes são directamente dirigidos. Esta influência mantém-se ao longo da infância e juventude.
Esta questão, a publicidade que tem por actores e suporte os miúdos e forma como nós adultos lidamos com isso, é complexa, envolvendo aspectos legais, considerando leis e direitos, educativos, culturais, sociais, etc. pelo que não é fácil a sua abordagem e gestão.
Será ingénuo pensar que quem produz bens destinados aos miúdos ou que cuja aquisição possa ser pressionada pelos miúdos, não tenha a tentação de que a mensagem publicitária seja o mais eficaz possível, ou seja, venda, não importa o quê, desde um alimento hipercalórico à última versão do videojogo, a qualquer dispositivo electrónico ou as férias dos pais em locais atractivos para os miúdos.
Apesar das dificuldades que atravessamos, estamos num tempo de “és o que tens e se não tens … não és”, o que afectando os adultos, veja-se as situações de crédito malparado familiar por compras compulsivas e sem base económica sustentada, não pode deixar de influenciar os mais novos.
No entanto, acredito que podemos fazer alguma coisa junto dos pais e dos miúdos para tentar atenuar os efeitos deste cenário. As escolas poderiam ter um trabalho interessante debatendo com os miúdos, de todas as idades e de forma adequada, o papel da publicidade nas escolhas e nos gostos deles promovendo uma atitude mais consciente e crítica destes processos. Poderia também ser interessante conversar com os pais sobre o papel dos “presentes” e das “compras” nas dinâmicas e relações familiares, isto é, mais prendas e mais compras não é necessariamente melhor ou ainda sobre o papel da publicidade e a forma de lidar com a pressão desencadeada pelos filhos depois de verem “os ecrãs” ou as mensagens publicitárias.
Na verdade, apesar da sua complexidade é uma matéria a que por muitas razões vale a pena dedicar atenção.
O Natal está quase aí.


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

UMA BOA NOTÍCIA NA EDUCAÇÃO

Num universo tão carecido de boas notícias, a educação, merece registo os dados agora conhecidos sobre o trajecto dos alunos após o secundário.
A Direcção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência montou um dispositivo, Observatório de Trajectos dos Estudantes do Ensino Secundário, de seguimento destes alunos e está a verificar-se um aumento dos que optam por continuar a estudar depois do 12º face aos que entram no mercado de trabalho.
De facto, os dados do ano anterior mostram que 72,5% dos inquiridos continuava a estudar o que significa um aumento de 5,2 % relativamente aos dados de 2014. Saliente-se que este aumento também envolve os alunos dos cursos profissionais.
Como tantas vezes tenho escrito e recentes estudos mais uma vez o comprovam, Portugal é um dos países em que a qualificação superior mais compensa.
A narrativa, como agora se diz, de que "não adianta estudar" não colhe e não tem sustentação sendo, um autêntico tiro no pé de uma sociedade pouco qualificada como a nossa que, efectivamente e contrariamente à tão afirmada quanto errada ideia de que somos um país de doutores, continua, em termos europeus, com uma das mais baixas taxas de qualificação superior em todas as faixas etárias incluindo as mais jovens.
Conseguir níveis de qualificação compensa sempre e é imprescindível. Estudar e conseguir qualificação de nível superior compensa ainda mais.
Portugal não tem gente qualificada a mais, tem é desenvolvimento a menos. Temos também um mercado de trabalho que a cegueira da austeridade e do empobrecimento proletarizou e que não absorve uma parte significativa da mão-de-obra qualificada, sobretudo jovem.
Não podemos acolher a mensagem de que a qualificação não é uma mais-valia. É um tiro no pé.
Ainda bem que os jovens estão compreender isso mesmo embora seja ainda preocupante o número que está na situação de “nem, nem”, nem estudam ou estão em programas de formação, nem trabalham.

INQUIETAÇÕES, INQUIETAÇÕES

Ao que se lê na imprensa de uma reunião entre a FENPROF e a Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) resultou o expressar conjunto de preocupações com as alterações previstas à lei sobre a educação especial.
Compreendo e acompanho algumas preocupações com as alterações que parecem estar em processo de decisão a propósito do Regime Legal da Inclusão Escolar.
No entanto e por estranho que pareça, também devo dizer que me preocupa a falta de alterações no que acontece neste universo.
Ainda ontem conheci na primeira pessoa, uma mãe, uma história muito feia elucidativa do que por vezes acontece … em nome da inclusão.
E a minha maior preocupação é que das alterações previstas não resulte um dispositivo de regulação que minimize os problemas levantados por uma das dimensões, porventura a única, em que o sistema é verdadeiramente inclusivo, acomoda práticas e intervenções das mais variadas, desde a excelência à mediocridade atropeladora dos direitos dos miúdos. Tudo isto sem um sobressalto.
Daí este meu cansaço e inquietações

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O TRABALHO COLABORATIVO

A OCDE divulgou o V volume de Relatórios construídos a partir dos resultados do PISA de 2015, “COLLABORATIVE PROBLEM SOLVING”.
O trabalho é extenso e com dados e análises que merecem leitura,quer no que respeita a Portugal quer na reflexão global e estratégica.
Num tempo em que já cansa ouvir falar de inovação e mudança em educação, parece oportuno recuperar algo que não é novo, a importância do trabalho cooperativo ou colaborativo entre os alunos.
No entanto e tal como se refere no Relatório o trabalho colaborativo entre alunos assenta em ambientes de escola colaborativos, em colaboração entre professores e envolvimento das famílias.
Na verdade o recurso a ambientes colaborativos de ensino, aprendizagem, desenvolvimento profissional e educação são ferramentas reconhecidas de promoção de qualidade nos processos educativos e com impactos muito para além dos resultados escolares.
A este propósito uma pequena história "um bocado" sem sentido e improvável.
Era uma vez uma Professora que andava com umas dúvidas sérias. Ela achava que os seus alunos trabalhavam melhor e sentiam-se também melhor quando, por períodos grandes, falavam nas aulas. Tinha lido umas coisas sobre estas matérias, organizava debates e muitos trabalhos realizados em grupo e com grandes discussões entre os alunos. Esta ideia não ia muito ao encontro da sua experiência de pequena e de muita da formação que lhe deram. Por outro lado, parte significativa dos seus colegas criticavam porque, diziam, fomentava maus hábitos nos alunos e levava a que os alunos deles lhes levantassem problemas porque queriam falar. Além disso, na comunicação social, apareciam uns opinantes a afirmar que, na escola, o trabalho dos meninos é ouvir o professor e estudar. É assim que se aprende, dizem essas pessoas. Tudo isto lhe causava dúvidas sobre o que estava fazer.
Um dia, na biblioteca, encontrou o Professor Velho, o que fala com os livros, e, em jeito de desabafo, comentou as suas inquietações e a dificuldade em explicar a ideia que acreditava ser certa. O Professor Velho riu-se e falou daquele modo baixinho, “Professora, que ouvimos nós da maioria dos pais quando percebem os seus filhos muito tempo quietos e calados?”. “Ó Velho não brinques. Os pais costumam dizer que ou estão doentes, ou estão a fazer asneira, ou já fizeram asneira”.
Pois é Professora, pergunta aos teus colegas se querem os alunos doentes ou a fazer asneira”.
Obrigada Velho, eu estou certa, vou falar com os alunos sobre isto”.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

COISAS DE MIÚDOS, COISAS DE GRAÚDOS

Quando se olha e atenta nos tempos que vão correndo parece que o mundo anda do avesso. Reparamos nos comportamentos das pessoas, nos seus discursos e atitudes e quando achamos que estão a passar das marcas, seja no que for, alguém avalia, “parecem miúdos” ou “piores do que os miúdos”, etc. No fundo, parece que os adultos quando se portam mal agem como miúdos, quando se portam bem, bom, nesse caso serão adultos.
Por outro lado e curiosamente, quando olhamos para os miúdos e reparamos nos seus comportamentos menos positivos achamo-los tremendamente parecidos com os adultos. Aliás, de vez em quando ouvem-se vozes a defender que quando os miúdos fazem as asneiras semelhantes às dos adultos devem ser tratados como adultos, por exemplo, prendendo-os.
De facto, o mundo parece um bocado esquisito e do avesso. Os miúdos quando se portam mal parecem adultos e os adultos quando se portam mal parecem miúdos.
Será isto que se entende por trocas entre gerações? E que tal os graúdos deixarem de fazer concorrência aos miúdos na forma como agem, para que também estes não sintam a tentação de parecer adultos a fazer asneiras?
No meio destas inquietações ainda tenho uma dúvida acrescida. Porque será que me lembrei disto hoje?

A GUERRA É A GUERRA

A questão da carreira dos professores é uma situação complexa sobretudo pelo impacto da reposição dos efeitos de congelamento verificado. Não estranho, pois, a discussão que tem gerado e a dificuldade de encontrar compromissos.
O que me parece mais curioso e há dias já o referi é que esta discussão seja alimentada também por uma agenda que dela se serve para diabolização dos professores, as pessoas a quem entregamos os nossos filhos todos os dias.
A discussão serve também para que se possa atacar a escola pública e o esforço e a competência da esmagadora maioria dos que nela trabalham.
Continuam a aparecer na comunicação social nos seus vários formatos intervenções que produzidas pelos “falcões” habituais ou caceteiros de ocasião são intelectualmente desonestas, escondendo realidades sobre os professores e o seu trabalho e o trabalho de alunos e escolas e recorrendo às tão em moda “fake news”, factos alternativos.
Como escrevi vejo muita gente ligada à educação considerar como ignorantes as afirmações de muitos desses opinadores. Não sejamos ingénuos, não é ignorância, é guerra política pura e dura.
Como cantava o Fausto, “a guerra é a guerra”.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

OS ALÇAPÕES DA "NET"

Umas notas, agora na Visão online, sobre os alçapões da “net” nos quais os mais novos podem tropeçar e a que importa estar atento.
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Não me parece boa ideia “diabolizar” as novas tecnologias. Fazem parte do nosso quotidiano e são excelentes ferramentas de acesso a conhecimento e a entretenimento. A definição de regras, tempo,  atenção aos conteúdos e circunstâncias de utilização será uma atitude bem mais ajustada
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OS DIREITOS DA CRIANÇA, UMA AGENDA POR CUMPRIR

O calendário das consciências determina para hoje o Dia Universal dos Direitos da Criança assente numa dupla comemoração, a proclamação da Declaração dos Direitos da Criança (1959) e adopção da Convenção sobre os Direitos da Criança (1989) pela Assembleia Geral das Nações Unidas.
É verdade que nestes 58 anos, pensando sobretudo na realidade portuguesa, muito evoluímos também no que respeita ao universo dos mais novos. No entanto, os Direitos da Criança continuam uma agenda por cumprir por muitas e diferentes razões.
Os ventos malinos que sopram e o enorme conjunto de dificuldades que atravessamos apesar de algumas melhorias, ancorados num quadro de valores que tende a proteger mercados e interesses outros que conflituam com os interesses e bem-estar da maioria das pessoas vão criando exclusão, pobreza e negação de direitos. Aliás, é frequente o entendimento de que os direitos devem ser entendidos como sendo de geometria variável, ou seja, dependem da conjuntura económica pelo que os que menos têm também terão os seus direitos diminuídos.
Neste cenário, conforme os estudos e a experiência mostram, os mais novos constituem um grupo especialmente vulnerável.
Nesta vulnerabilidade existem três áreas em que me parece que os direitos estão particularmente ameaçados, as crianças e adolescentes em risco de maus tratos, abusos e negligência, a pobreza infantil e o direito à equidade nas oportunidades de acesso à educação de qualidade para todas as crianças, sublinho, TODAS as crianças.
De uma forma geral, os discursos e a retórica política sempre acentuam a importância destas matérias mas é preciso ir um pouco mais longe. Por exemplo, dotar as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens dos meios suficientes e qualificados para a detecção e acompanhamento eficaz dos casos de risco, ou caminhar no sentido de diminuir o número de crianças institucionalizadas e sem projecto de vida.
No que respeita ao risco de pobreza, as crianças são sempre o elo mais fraco de uma sociedade com um fosso demasiado grande entre os mais ricos e os mais pobres. As políticas sociais não podem deixar de entender como prioritário, sobretudo nos tempos que atravessamos, os apoios sérios e fiscalizados aos problemas das famílias que envolvem, necessariamente, os mais novos. É o seu futuro que está em causa.
No que respeita à educação, a equidade e o objectivo de que todos atinjam o patamar possível de sucesso educativo e qualificação é o grande desafio. Os discursos políticos nunca esquecem o grande desígnio da educação ou a paixão pela educação. Precisamos de caminhar de forma séria e não tentados pela sedução do sucesso estatístico, para a qualidade dos processos educativos que se traduz nos níveis de qualificação das pessoas (não da simples certificação), na diminuição das taxas de abandono e insucesso, enfim, na construção de projectos de vida viáveis e bem-sucedidos. Muitas crianças e adolescentes com necessidades especiais vêem atropelados os seus direitos a dimensões básicas da qualidade de vida, a educação, por exemplo.
Torna-se imperativo promover a participação e fazer ouvir, escutando, a voz dos mais novos.
Continuamos com uma agenda por cumprir no que respeita ao seu bem-estar.

domingo, 19 de novembro de 2017

A TERRA ESTÁ ZANGADA

Imagino que a Terra comece a ficar cansada da irresponsabilidade delinquente desta gente que a povoa, sobretudo dos que lideram. Depois de tanta asneira insistem nos maus-tratos e não se entendem sobre a forma de mudar de rumo.
Dão-lhe cabo das entranhas, alteram-lhe o clima, mudam paisagens, esgotam-na, deixam-na estéril e sem sustento. Estamos em Novembro e a terra está seca e as nuvens que trazem água andam longe. Aqui no Alentejo o dia está feio de tão bonito.
A Terra não está a aguentar. E nós também não.
A minha avó Leonor, mulher de sabedoria, costumava dizer que não era bom a gente meter-se com a Terra, com a natureza, e maltratá-la. A natureza vai ser sempre maior que a gente e não aceita que mandem nela.
Quando acorda zanga-se e quando se zanga os efeitos são devastadores. Apesar destes avisos não parece que a levem a sério.
Esta gente não aprende mesmo, já não espero que o fizessem em nome deles, os seus interesses imediatos não deixam. Mas podiam fazê-lo em nome dos filhos, dos filhos dos filhos, dos filhos dos filhos dos filhos,  …

sábado, 18 de novembro de 2017

QUE SE SEPAREM OS PAIS MAS NÃO SE SEPAREM OS FILHOS

Na Visão encontra-se uma interessante entrevista com Sofia Marinho sobre a importância da promoção da residência alternada, a crianças viver com pai e mãe alternadamente após processos de separação conjugal.
Os inquéritos junto das famílias e os estudos mostram que em princípio é mais vantajoso para a criança viver em casa do pai e em casa da mãe por períodos alternados do que a situação mais habitual nos casos de regulação parental, a entrega da criança à mãe e visitas ao pai. A própria cultura dos Tribunais de Família alimenta decisões desta natureza subvalorizando por preconceito e representação a capacidade cuidadora e educadora dos pais entendo-o sobretudo como “financiador” e parceiro para brincadeiras. Este modelo gera potenciais assimetrias e afastamento entre as crianças e os pais assimetria
É evidente que ao defender o princípio da residência alternada estamos a falar num princípio geral que deverá ser considerado caso a caso.
Importa ainda sublinhar que as crianças gerem muito bem a dimensão logística da residência alternada. Na verdade, desde muito novas as crianças lidam tranquilamente com progenitores separados que as amem e delas cuidem e com quem convivam alternadamente.
É sempre preferível uma boa separação a uma má família e compete aos adultos o esforço, por vezes pesado, de construir uma boa separação. Aliás, só assim poderão voltar a constituir uma boa família.
Importante mesmo é que também todos os que de nós lidamos com crianças e com os seus problemas possamos ajudar os pais neste entendimento, poupando sofrimento a adultos e crianças e mesmo decisões de guarda parental pouco amigáveis para o superior interesse da criança.